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ARTHUR DE FARIA  (músico)

ROMA....

 

Quem tem gatos, visualiza facilmente a cena: tu, enlouquecido pela casa por um motivo qualquer, quase em pânico por uma bobagem e aí... teu gato. Deitado ao sol, ele levanta a cabeça, te olha com uma cara de “pra que isso?” e a cabeça novamente descansa no tapete.

O apelido de Carlos Villalba é Garfield. E meu amigo é muito gato. Não “muito gato” no sentido brasileiro do termo (= muito bonito), ainda que Carlos seja sim um homem muito grande, gorducho... e muito bonito.

Carlos é “muito gato” nessa forma muito gata de olhar o mundo - e relacionar-se com ele somente na medida do inevitável.

Imagino fácil outra cena: o primeiro anjo toca sua trombeta, há uma saraivada de fogo misturado com sangue que queima uma terça parte da terra, o segundo anjo toca sua trombeta e é lançada no mar uma coisa como um grande monte ardendo em fogo, e torna-se em sangue a terça parte do mar, morrendo a terça parte das criaturas que tinham vida no mar, o terceiro anjo toca sua trombeta, e cai do céu uma grande estrela ardendo como uma tocha, e...Carlos viraria pra mim e segredaria: - A-bur-ri-do. Pois então.

A arte do Carlos é isso. Um olhar jamais arrebatado sobre nada. Ou melhor: arrebatado, sim. Mas lá do seu jeito. Como Chico Buarque, ele tem lançado discos e (até agora um) livro, e as pessoas acham as duas coisas tão diferentes, e eu acho as coisas tão parecidas na sua essência. Carlos (e Chico) não são narradores confiáveis. São mais inteligentes que nós. Mas não caem na armadilha de acharem-se mais inteligentes, o que tem produzido justamente a arte mais a-bur-ri-da dos últimos 250 anos.

Carlos tem, efetivamente, aquele ceticismo inerente às grandes inteligências. Em português, se diria: “a gente tá indo, ele já tá voltando”. Os amigos sabemos o quão profundamente irritante isso pode ser, se não rirmos juntos. Eu, de minha parte, sempre rio junto. Mesmo que muitas vezes seja de mim que estejamos rindo.

Dito isso, pra deixar mais complexa a coisa, Carlos é um romântico arrebatado como só os jamais arrebatados e insuspeitadamente românticos podem ser. Romantismo melancólico imerso numa fumaça de casa de ópio que esfuma qualquer contorno.

E aí um dos pontos onde ainda quero chegar: nos discos, a forma como isso foi transformada em arranjos das canções liricamente sofisticadas mas musicalmente simples me fez pensar, no primeiro: que fabulosa essa névoa que o Diego Schissi criou pra Nomeolvides.

Aí escuto Roma e vejo a mesma névoa. A mesma ideia de arranjo (tão brilhantemente realizada por Alan Plachta como a foi por Schissi, ambos músicos imensos, de imensas possibilidades). E me dou conta que Carlos ria da minha cara (podia ser por modéstia, mas tenho certeza absoluta de que não era) a cada vez que eu falava dessa sonoridade.

Isso era dele. Muito bem realizada por esse dois gênios arranjadores, cercados de um time all star de musicazos como Ignacio Varchausky, Mario Gusso e Martin Pantyrer, e ainda pontuado pela voz peculiar de Melina Moguilevsky. Mas dele. E aí fui reouvir Nomeolvides, alternando com Roma. Capítulos I e II de um mesmo roteiro, com cenários diferentes, Marcelo Mastroianni de protagonista. Em preto-e-branco.

No mais, o que dizer? Que Carlos, claro, jamais agarrado a nada, nunca cairia na tentação de soar “argentino”, talvez nem “sul-americano”. Sua música tem ecos de tudo: Brasil, Argentina... Roma. Está tudo ali, sutil como seria de se esperar. Jamais explícito, como seria de se esperar.

Mas, arrá!, de uma coisa tu não escapou, Carlitos: é irremediavelmente geograficamente localizável essa melancoliiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiia tão, mas tão – isso sim – sureña.

Eu podia falar em Estética do Frio, mas aí esse texto não acabava nunca mais.

 

 

 

 

NOMEOLVIDES

por Arthur de Faria

 

Melancolía. Una melancolía más típicamente uruguaya que argentina, incluso menos  porteña, posible herencia genética de antepasados charrúas.

 

Melancolía para mi es la llave de "nomeolvides".

 

Y esa fue una de las tantas sorpresas que tuve al tomar un primer contacto con ese desconocido Carlos compositor, que jamás imaginé habitase en mi amigo de ya tantos años cuando, en 2006 (2007?),  asistí a su show aquí en Porto Alegre, sabiendo que era el primero, pero sin tener idea de que debía esperar.

 

Y esperaba de todo de mi amigo payaso, irónico, desenfadado, de un sarcasmo demoledor y sutil. Menos que se revelase como un melancólico arrebatado, un sujeto que creía en el amor, en el abandono, en la fragilidad humana. Un Carlos tan diferente de aquel que yo conocía.

 

Y ahí, a partir de ese primer show pequeño e íntimo, mucho trabajo realizó, eso es cierto.

 

Mucho trabajo y dedicación de Carlos, Ignacio y Schissi, el trío de responsables del impresionante disco donde todo se completa: la sonoridad de la grabación, los arreglos, las interpretaciones del proprio Carlos - que, en  medio a una constelación de intérpretes geniales que está en el disco, son las que más me tocan. Todo da cuenta de un mismo clima cinematográfico. Como si fuese posible un film triste de Disney, en blanco y negro, dirigido por algún francés en el comienzo de los años 60. Pero no puede ser, porque en esa tapa, con un fotograma en llamas, todo se quema  en silencio, en cinematográfica introspección. Una introspección que gira no sin alguna ironía,  con ecos de Satie,  de Alberto Muñoz, con algunas estructuras cíclicas que evocan por momentos a Leo Maslíah o algo de la canción brasileña.

 

Si nada hubiese en el disco, valdría solo por la versión de piano y voz de "Si Te Vas". Todo está resumido allí: el piano en un arreglo que más que acompañar  imprime colores, la melodía cíclica, aparentemente simple, que se desdobla en variaciones siempre distintas, la letra sobre el abandono de hombre herido, insomne y al mismo tiempo adormecido, en medio una pérdida, de la perdida de la mujer amada que se lleva consigo sus sentidos, sus orientaciones, sus divisiones posibles entre sueño y vigilia, entre sueño y pesadilla. Una obra-prima donde todo es menos, nada es más. Y "nomeolvides", todo  el disco, es eso: menos, siempre menos. Y menos incluso cuando se trata de una orquesta casi completa y cantantes como Liliana Herrero o Cida Moreira. Están siempre haciendo menos, en el  mejor sentido posible. Hay ahí una cosa que no es fácil. Es gran arte.

 

 

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